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Cultura OeirasOeiras Centro23 de setembro de 2026

Quatro adultos, dois dentes partidos e zero filtros: “O Deus da Carnificina” chega a Oeiras

A comédia negra de Yasmina Reza chega ao Teatro Independente de Oeiras a 25 de setembro. O que começa como uma conversa civilizada entre dois casais transforma-se numa guerra de egos, relações e verdades inconvenientes.

Em parceria comLogótipo do Teatro Independente de Oeiras

Artigo patrocinado · Cultura Oeiras × Teatro Independente de Oeiras

Cartaz oficial de “O Deus da Carnificina”, em cena no Teatro Independente de Oeiras a partir de 25 de setembro
Quatro adultos encontram-se para resolver civilizadamente um conflito entre os filhos. A parte da “civilidade” não dura muito.

Dois miúdos discutem. Um deles acerta no outro com um pau. Resultado: dois dentes partidos.

A partir daqui, quatro adultos fazem aquilo que adultos civilizados supostamente fazem: sentam-se, conversam calmamente, acertam responsabilidades e resolvem o problema.

Pelo menos, esse é o plano.

Em “O Deus da Carnificina”, o problema nunca foram apenas as crianças. São os pais.

E quando as boas maneiras começam a falhar, aquilo que parecia uma reunião educada entre dois casais transforma-se numa espécie de combate sem árbitro — com casamentos, egos, ressentimentos e contradições a entrarem todos em campo.

A partir de 25 de setembro, esta comédia negra de Yasmina Reza sobe ao palco do Teatro Independente de Oeiras (TIO), numa coprodução com A Rafeira — Estrutura de Criação e encenação de Carlos d’Almeida Ribeiro.

Não é preciso gostar de conflitos para achar graça à peça.

Basta já ter tentado ganhar uma discussão.


Uma sala, quatro adultos e uma pergunta desconfortável

Os quatro protagonistas de “O Deus da Carnificina” sentados na sala, no início do encontro
O conflito entre os filhos é apenas o fósforo: o que arde em palco são os adultos.

A premissa é quase banal.

O filho de um casal agride o filho de outro. Os pais decidem encontrar-se para resolver a situação de forma sensata. Há educação, contenção e a vontade muito adulta de fazer tudo “como deve ser”.

Só que há conversas que começam por um assunto e acabam em todos os outros.

Pouco a pouco, o conflito entre os filhos torna-se apenas o fósforo. Surgem as frustrações dentro de cada casal, as pequenas superioridades morais, os julgamentos, as alianças inesperadas e aquela necessidade tão humana de provar que, no fundo, o problema está sempre do outro lado da mesa.

É aí que O Deus da Carnificina encontra o seu humor.

Não numa sucessão de piadas, mas no desconforto de reconhecermos comportamentos que preferíamos atribuir apenas aos outros.

Há peças que nos fazem escolher uma personagem favorita. Esta tem potencial para nos fazer mudar de lado várias vezes durante a mesma discussão.

E talvez seja precisamente esse o problema.


“É sobre o verniz da civilização a cair”

Na visão de Carlos d’Almeida Ribeiro, diretor e encenador do TIO, a força da peça está no que acontece quando desaparecem os filtros que usamos para viver uns com os outros.

Duas personagens em confronto direto durante uma cena de “O Deus da Carnificina”
Quando os filtros caem, a conversa educada dá lugar ao confronto.
"

“O Deus da Carnificina é sobre nós. É sobre o verniz da civilização a cair em 90 minutos.”

— Carlos d’Almeida Ribeiro

A encenação parte dessa pressão crescente.

Uma sala que, ao início, parece segura vai-se transformando numa arena. O público assiste de fora, mas a intenção é que se sinta progressivamente dentro daquela conversa — próximo o suficiente para rir e desconfortável o suficiente para pensar: “eu já fiz isto”.

O próprio encenador resume a peça como um confronto entre a civilização e a barbárie, atravessado pela hipocrisia social, pelas relações e pela dificuldade de comunicar sem ferir.

Dito de outra maneira: quatro adultos tentam resolver uma discussão entre crianças e acabam a comportar-se pior do que elas.

É difícil pedir uma premissa mais promissora para uma comédia.


Uma peça com 20 anos que parece ter sido escrita para agora

Yasmina Reza construiu a sua carreira a observar aquilo que acontece quando pessoas aparentemente razoáveis são colocadas perante situações suficientemente pequenas para parecerem controláveis — e suficientemente pessoais para deixarem de o ser.

Em O Deus da Carnificina, as palavras tornam-se armas.

Dois dos protagonistas frente a frente numa cena de “O Deus da Carnificina”
As personagens interrompem-se, julgam-se e contradizem-se — e as alianças mudam a meio da conversa.

As personagens interrompem-se, julgam-se, contradizem-se, recuam e voltam ao ataque. As alianças mudam. A pessoa que parecia ter razão há cinco minutos pode tornar-se a mais insuportável da sala cinco minutos depois.

Num tempo em que tantas discussões começam antes de alguém terminar de ouvir o outro, a peça ganha uma atualidade curiosa.

Não é uma história sobre redes sociais, política ou debates televisivos.

É apenas uma sala com quatro pessoas.

Talvez seja por isso que funciona tão bem.

A peça ganhou projeção internacional e, em 2009, venceu o Tony Award de Melhor Peça na Broadway. Mas o seu mecanismo continua surpreendentemente simples: colocar quatro adultos frente a frente e esperar que a civilidade faça o resto.

Ou que deixe de fazer.


Quem entra nesta “carnificina”

A produção reúne quatro intérpretes em palco:

  • Miguel Migueis, no papel de Miguel Fonseca;
  • Maria Toscano, como Verónica Fonseca;
  • Gonçalo Lima, como Alberto Cardoso de Menezes;
  • Clara Passarinho, como Bernardete Cardoso de Menezes.
Miguel Migueis, Maria Toscano, Gonçalo Lima e Clara Passarinho em cena em “O Deus da Carnificina”
Os quatro intérpretes dividem o palco nesta coprodução do TIO com A Rafeira — Estrutura de Criação.

A encenação e direção de atores ficam a cargo de Carlos d’Almeida Ribeiro, que assina também a cenografia.

A produção junta o Teatro Independente de Oeiras e A Rafeira — Estrutura de Criação, numa coprodução que faz sentido também fora do palco: duas estruturas diferentes a trabalhar em conjunto numa peça precisamente sobre a dificuldade — e a necessidade — de convivermos com visões diferentes.

Clara Passarinho, atriz e coprodutora, sublinha essa dimensão do espetáculo: a vontade de criar um espaço onde o público possa rir, reconhecer-se nas contradições das personagens e, depois, continuar a conversa.

E este talvez seja um dos melhores elogios que se pode fazer a uma peça de teatro: não acabar quando as luzes se acendem.


O TIO joga em casa

Há também uma razão simples para esta estreia merecer atenção em Oeiras: acontece num palco que faz parte da história cultural do concelho.

Fundado em 1990, o Teatro Independente de Oeiras construiu ao longo de mais de três décadas uma programação fortemente ligada à comédia, ao teatro para diferentes públicos e à criação de uma relação continuada com quem vive no concelho.

Com O Deus da Carnificina, o TIO regressa a um terreno que conhece bem — a comédia — mas fá-lo através de um texto que não procura apenas arrancar gargalhadas.

Aqui, o riso vem acompanhado de uma pergunta.

Quanto tempo aguentaria o nosso próprio verniz?

Duas personagens cara a cara no momento de maior tensão de “O Deus da Carnificina”
Ao longo de cerca de 85 minutos, a sala transforma-se numa arena.

O essencial antes de ir

O Deus da Carnificina

  • De: Yasmina Reza
  • Encenação: Carlos d’Almeida Ribeiro
  • Coprodução: Teatro Independente de Oeiras × A Rafeira — Estrutura de Criação
  • Em cena: 25 de setembro a 18 de outubro de 2026
  • Horários: sextas-feiras às 21h30 · domingos às 17h00
  • Duração: cerca de 85 minutos
  • Bilhetes: 15€ a 18€
  • Local: Teatro Independente de Oeiras — Auditório Novo Espaço, Edifício Parque Oceano, Rua Dr. José Joaquim de Almeida, 2, Santo Amaro de Oeiras
  • Bilheteira: TIO / Ticketline

Um último aviso

Se a ideia era ir ao teatro para passar uma noite descansada, há boas notícias: provavelmente vai se rir.

As más?

Pode sair de lá a discutir sobre quem tinha razão.

E, segundo o encenador, se isso acontecer no carro a caminho de casa, o espetáculo terá cumprido o seu trabalho.

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